O Pentacampeão do falso moralismo

Mais de 100 mil pessoas morreram em Myanmar devido à passagem do ciclone Nargis no último fim de semana. Uma tragédia imensurável para um país tão pequeno e problemático. Fiquei sabendo por alto, não sei de muita coisa, mas a culpa é minha, porque procurei a informação nos meios errados. Só fui saber mais detalhes quando, zapeando o controle, minha namorada parou no noticiário da BBC, por acaso.
Por acaso mesmo. Infelizmente, não tenho o hábito de assistir ao canal da rede londrina. Uma pena para mim. Durante mais ou menos 15 minutos, o noticiário trouxe informações bem completas sobre o desastre.
Por incrível que pareça, nenhuma palavra sobre Ronaldo, o Fenômeno.
E olha que os ingleses gostam de escândalos. Seus tablóides são mundialmente conhecidos pelo sensacionalismo.
Mas a imprensa da Inglaterra, assim como o resto da Europa, não deu 10% do destaque que a mídia bananeira deu ao caso.
E Ronaldo mora no velho mundo há anos, é tão conhecido lá como aqui. Ganhou dinheiro e trilhou praticamente toda sua carreira no exterior. Nem por isso, está sendo execrado lá fora com a mesma crueldade que acontece aqui no Bananal, o país que já o reverenciou e que pode voltar a fazê-lo, se for conveniente.
Porque, como todo mundo sabe e ninguém assume, a moral do brasileiro é rasa e relativa.
Hoje, Ronaldo é um gordo decadente, um idiota sem caráter que traiu a linda namorada com três travestis. Um péssimo exemplo para os 180 milhões de heterossexuais convictos e fiéis nos seus relacionamentos.
Se amanhã, ele classificar o Brasil para a Copa, se transformará no herói azarado, que talvez tenha se enganado ao buscar uma garota de programa por causa da briga com a namorada meia-boca que, provavelmente, encheu o saco dele naquela noite.
Se fizer o gol do hexacampeonato, Ronaldo será Deus, uma fênix, um exemplo de superação, um brasileiro que não desiste nunca, vítima de uma tramóia armada pelos travestis, a namorada horrorosa e a Federação Argentina de Futebol.
O jogador Kaká, supostamente, contribui financeiramente com Igreja Renascer, além de ser amigo dos bispos da instituição, envolvidos em atividades ilícitas, inclusive com passagens pela prisão por evasão de divisas.
Por que Kaká não está nas manchetes? Por que não está sendo acusado de envolvimento com o crime? É o dinheiro dele que pode estar no meio. Cadê o escândalo? As chances dos bispos serem inocentes são as mesmas do Ronaldo ter confundido o traveco com uma mulher. Evasão de divisas e lavagem de dinheiro são infrações graves, previstas em lei, ao contrário de sexo com travestis.
Onde está a indignação e a incredulidade com Kaká? Não seria um absurdo, uma decepção, um menino aparentemente instruído e bem criado, envolver-se com o crime? Ainda não vi portais de Internet, programas de TV ou jornais dedicarem o mesmo espaço para o possível envolvimento do craque do Milan com os bandidos da Renascer. Onde estão as especulações, o sensacionalismo, as ex-namoradas, os debates puritanos?
Muitos responderão que a religião é assunto pessoal, privado, onde as escolhas individuais devem respeitadas.
E o sexo? Não é a mesma coisa?
Não se trata de fazer uma defesa do Ronaldo. Ele não precisa, visto que não cometeu crime nenhum, até ser comprovado o uso de drogas ilegais. É adulto, tem consciência do mundo que vive e das consequências dos seus atos.
Ninguém pôs uma arma na cabeça dele e o forçou a fazer nada. Ele correu o risco, agora aguente.
Como o próprio disse, foi estupidez. Os grandes riscos tornam-se grandes prazeres quando você se realiza, e enormes burrices quando você se dá mal.
Ele não merece afagos, longe disso. Mas, menos ainda, ser julgado, condenado e massacrado.
A gozação e as brincadeiras são consequências normais de vacilos aos quais todos estão sujeitos, famosos ou não .
O bom senso estipula o limite. Tranquilo, sem problemas.
Daí a ter o caráter e a índole esculhambados por uma massa de ignorantes hipócritas, manipulada por falsos pregadores de caneta, papel e mouse na mão, vai uma distância muito grande. Ou que, pelo menos, devia ser grande.
Ele errou feio ao enganar a namorada e expor o filho, mas pagará pelo vacilo. A decepção da antiga companheira e parentes, além de constrangimentos profissionais, serão mais do que suficientes para puni-lo.
O resto é pura babaquice e falso moralismo escroto.
Brasileiro não se enxerga.
Se infidelidade fosse motivo de cadeia, arrisco que 80% da população bananeira estaria no corredor da morte.
Se fosse pego em flagrante com a Ivete Sangalo, as manchetes teriam outro tom: " Ronaldo tem novo amor" ou
" Ivete e Ronaldo, o casal do ano." Ninguém estaria com pena da ex-namorada. Ele não seria taxado de mau caráter, vagabundo ou burro. Teria o total apoio dos mesmos que hoje o condenam. A verdade é que ninguém está nem aí pros sentimentos da menina, mas sim, julgando a escolha do Ronaldo.
A maioria absoluta das mulheres que estão "indignadas" e "morrendo de pena" da garota não pensaria duas vezes em ficar com ele naquela noite, mesmo ele sendo comprometido.
Vamos partir do princípio que ele quis realmente um travesti, hipótese mais do que provável.
Particularmente, acho que ele teve um péssimo gosto, fez uma péssima escolha. E só.
Sobre a pessoa, o caráter, a inteligência, só os que o conhecem pessoalmente podem falar.
Mas numa cultura atrasada como a do Bananal, poucos conseguem distinguir crítica de julgamento. Desacordo de ofensa. Falta educação, auto-crítica e discernimento para opinar.
Enquanto uns poucos ponderados se esforçaram para entender este texto até aqui, outros, limitados intelectualmente, já prejulgaram o autor que, provavelmente, é viado, comedor de travestis ou apaixonado pelo Ronaldo, e por isso escreveu um artigo em sua defesa.
Ouvi muita gente dizendo ser inaceitável, absurdo, um cara rico, famoso, com belas mulheres no currículo, parar em um motel no fim de noite com três travecos. Que ele não podia ter feito isso.
Pode ter sido de mau gosto para muitos, entre os quais eu me incluo, mas inaceitável? Absurdo? Não podia ter feito?
O que a grana tem a ver com isso? Desde quando sexo tem classe social? Fantasias, hábitos e fetiches não são determinados pelo dinheiro. Quando se trata de sexo, a mente humana não faz esta distinção.
O pobre fudido pode comer travestis, mas o rico não? O favelado pode transar em pé, no meio do matagal à noite, mas o milionário não? Porque ele tem dinheiro, é obrigado a ir para um hotel 5 estrelas? Quem nunca se arriscou por uma aventura sexual?
Todo mundo tem desejos que fogem do "padrão normal" da sociedade. Realizá-los ou não depende da capacidade de lidar com o preconceito, tanto o pessoal quanto o externo.
Não bastasse a falta de respeito, educação e inteligência para tratar do caso, o brasileiro, além de tudo, está sendo ingrato. E não se trata da copa de 2002 ou dos mais de 70 gols pela seleção.
O fato é que a noitada do Fenômeno trouxe enormes contribuições.
A primeira: a menina Isabela Nardoni pôde descansar em paz, pelo menos por algumas semanas.
A segunda: Ronaldo deu uma ótima desculpa para o povo bananeiro falar de sexo sem sentir culpa ou medir as palavras.
Como o brasileiro não tem caráter para falar de sacanagem e extravasar sua libido livremente e sem pudor, ele precisa de um motivo para se liberar. É por isso que todo mundo adora o Carnaval. Peitos e bundas peladas disfarçam a putaria em forma de "arte" e a felicidade é medida pelo número de bocas beijadas ou relações sexuais em cinco dias. Durante este período, tudo é permitido. Se alguma coisa fora do"normal" acontecer, a desculpa hipócrita estará na ponta da língua: era carnaval.
Mas, depois da quarta-feira de cinzas, volta o puritanismo babaca. Nada de gente pelada no horário nobre ou comportamento promíscuo.
E agora, Graças a Ronaldo, a putaria está liberada. A palavra "traveco" pode ser dita em voz alta, em qualquer restaurante ou mesa de família, sem constrangimentos.
A terceira contribuição está basicamente ligada à segunda e é a mais importante.
Ronaldo proporcionou, em larga escala, uma necessidade básica mas escassa na personalidade brasileira: conforto moral.
Nada mais revigorante do que ver um cara rico, famoso e bem-sucedido numa situação constrangedora, malhado em praça pública, caindo em desgraça. Como é bom poder encobrir a própria mediocridade com a tragédia alheia e dormir sossegado.
O vagabundo que não sustenta a família por preguiça vai encher a cara sem culpa. Afinal, ele pode. É vagabundo, mas não come viados.
A mulher traída há quinze anos pelo marido pode relaxar e sentir-se linda novamente. Pelo menos, a amante é uma mulher e não um traveco. Que alívio! Que felicidade!
O infeliz que não dá prazer à esposa vai andar de cabeça erguida e engrossar a voz: "Está vendo meu bem, você não goza comigo, mas eu nunca fiz igual ao Ronaldo, eu sou macho pra caralho."
O vaidoso que não consegue pagar as duzentas prestações dos seu Ford Fusion vai parar de comer o Miojo que estava engolindo para economizar grana. De que adianta ter um carrão destes e ir parar num motel com três bichas?
Que golaço do Ronaldo!
Aliviou a consciência de um país inteiro. Se não fosse pela sua balada, esta paz de espírito não seria possível.
Ele não merece esse linchamento covarde, mas um desfile em carro do corpo de bombeiros, por todas as capitais do Bananal, o único lugar do mundo onde ser rico é agravante! Quem liga para a extorsão ou chantagem? O lance é comemorar a volta do sono tranquilo e sonhar com a queda do próximo ídolo!
Porque não se pode esperar mais do que isto de um povo fraco de caráter, educação e bom senso.
É tão difícil parar, refletir e tirar uma lição?
Eu aprendi a minha. Daqui pra frente, só assisto à BBC.
E Ronaldo, da próxima vez, vá realizar suas fantasias em Myanmar.
Porque lá, brasileiro nenhum vai dar a mínima, nem se você morrer.
Bruno Fernandes




















































































